sexta-feira, 8 de junho de 2012

ASCENSÃO E QUEDA DO AÇÚCAR CATARINENSE


Atividade que já foi representativa na economia do Estado hoje quase não existe

Ilhota - A cana-de-açúcar, que já representou importante filão na economia estadual, hoje é apenas uma atividade residual. Em 1980, o setor participava com 18,4% na pauta de exportações do Estado. Dez anos depois, no entanto, essa parcela era de apenas 0,4%. A concorrência dos produtores do Sudeste e Nordeste representou o fim da atividade em Santa Catarina. Enquanto durou, porém, a atividade representou uma página importante da história econômica catarinense. Era o ano de 1948. O pequeno povoado da Pedra de Amolar, no município de Ilhota, Médio Vale do Itajaí, viu chegar a fábrica Usati que transformava a cana-de-açúcar em um produto refinado. Um verdadeiro milagre para os habitantes do local, acostumados naquele tempo ao açúcar ainda bruto, escurecido, conhecido como mascavo. "Não esqueço o dia em que meu pai trouxe pela primeira vez o açúcar", conta o aposentado Félix Couto, à época com 12 anos. Coincidência ou não, desde então toda a sua vida acabou ligada ao processo de fabricação de açúcar. Primeiro trabalhou na lavoura de cana, para em seguida ingressar na Usati, onde ficou de 1954 a 1989, quando se aposentou. Couto cresceu dentro da empresa, acompanhou todos os seus passos, desde a fundação até a venda para o grupo paulista Cosan, em 2002, quando já não mais trabalhava lá. Hoje, é o mais antigo ex-funcionário ainda vivo da firma, que fechou as portas este mês. "Fiquei muito triste quando soube da notícia", lamenta ele referindo-se à decisão dos novos controladores da Usati, que optaram por encerrar as operações da quase centenária usina catarinense. A história da Usati começou no início do século passado, quando dois empresários, um catarinense e outro paulista, resolveram montar uma refinaria de açúcar no vale do rio Tijucas, onde é hoje o município de São João Batista. A atividade foi um sucesso e eles procuraram de outro lugar para nova refinaria. Propuseram negócio aos donos de um engenho, da família Konder Bornhausen, que funcionava na Pedra de Amolar. Fechado o acordo, deslocaram para o vilarejo às margens do Itajaí-açu as duas unidades beneficiadoras do grupo, centralizando ali toda a produção de açúcar. Nascia a Usina Adelaide e Tijucas (Usati) - fusão dos nomes Adelaide (Konder Bornhausen), do antigo engenho, e Tijucas, da refinadora montada pelos Gomes. Lançando a marca Portobello no mercado, a Usati tornou-se líder no segmento, a maior refinadora do Sul do País, produzindo em seu auge quase meio milhão de toneladas de açúcar por ano.

Nos primórdios, usina transformou vida da região de Ilhota

A Usati transformou a vida do pequeno povoado às margens do rio Itajaí-açu. Com a companhia vieram empregos, gente nova, estrada, escola, campo de futebol, posto de saúde, armazém, boteco, farmácia, salão de beleza, casas e outras pequenas empresas. Enfim, o progresso se instalou no bucólico vilarejo, cravado em plena mata atlântica. "Isso aqui era tudo mata virgem quando eu era mais jovem", conta Felício José Bittencourt, 85 anos, o mais antigo morador da Pedra de Amolar. "Quando veio a usina o que ainda tinha de mato foi derrubado pra fazer lenha e plantar cana", lembra ele, neto de Geraldino Joaquim Bittencourt, tido como o primeiro morador estabelecido no local, em 1870. O próprio Bittencourt ajudou a devorar a floresta, derrubando árvores para vender à Usati a lenha que aquecia suas caldeiras. Arrependido, entristeceu-se com o fim da selva e a ela passou a dedicar alguns dos poemas que escreve desde os 40 anos. Descendente de migrantes franceses, lembra que na infância moravam na localidade menos de uma dezena de famílias. "As terras de cada uma iam a perder de vista. Era tudo mato, que se derrubava pra fazer lavoura de milho, feijão, mandioca, cana, arroz". Hoje, a população do vilarejo é de aproximadamente mil pessoas. Na primeira metade do século passado começaram a surgir pequenos engenhos e alambiques na região, produzindo de forma artesanal farinha, cachaça, arroz e açúcar, sem refino. Com a chegada da Usati, o processo se acelerou, e o cenário mudou rapidamente. O que restava da floresta foi ao chão para dar lugar aos milhares e milhares de hectares ocupados pelas lavouras de cana, que forneciam a matéria prima da usina. De um dos pontos mais altos do vilarejo, onde está hoje o sindicato dos ex-trabalhadores, era possível perder de vista as plantações. No entorno da fábrica, formou-se a vila, cuja população aumentou cem vezes com a vinda da Usati. Nos anos 90, entretanto, a capacidade produtiva do solo se esgotou, a cana ficou cara demais e a Usati resolveu fechar o setor de usinagem. Passou a compra açúcar bruto de outras usinas e manteve apenas o refino. "Foi quando a Pedra de Amolar viveu seu primeiro período de decadência e o ciclo da cana chegou ao fim", esclarece Jorge João Pereira, presidente do sindicato dos trabalhadores nas indústrias de alimento da região.

Desativação da Usati marca fim de ciclo - Usina de açúcar da região de Ilhota atingiu auge nos anos 80, mas não conseguiu superar crise

Ilhota - Com incentivos do governo, a Usati atingiu seu auge produtivo nos anos 80, através das exportações. Mergulhado em lucros elevados, o grupo Portobello decidiu expandir os negócios, investindo na produção de cerâmica, construção civil e cultivo de maçã. Na década de 90, porém, com o fim do ciclo da cana e as dificuldades do mercado, a usina de açúcar balançou e precisou de uma parceria com a empresa suíça Glincore, que adquiriu 51% do negócio. Em 2004, mais uma mudança de controle acionário colocou a Usati na mão do grupo paulista Cosan S/A, um dos mais fortes do ramo no País. Por fim, em julho deste ano, ocorreu o último ato da saga açucareira iniciada pelos irmãos Gomes há quase 100 anos. Depois de voltar 95% da produção da Usati para o mercado externo, a Cosan decidiu baixar as portas da unidade, alegando que o baixo valor do dólar inviabilizou a operação. "Fomos pegos totalmente de surpresa. Tínhamos acabado de negociar um bom reajuste na data-base, a empresa estava investindo. Foi um choque, a vila parou perplexa", descreve o presidente do sindicato dos trabalhadores, Jorge João Pereira. O número de desempregados, segundo ele, foi de 237. Parte deste contingente, acredita, pode conseguir vaga na emergente indústria naval de Itajaí e Navegantes. "Quem sai da Usati tem ótimas referências no mercado", conclui. Pereira observa ainda que existem rumores extra-oficiais de que parte dos empregos poderia ser mantida se a empresa continuar embarcando contêineres no porto de Itajaí. "Neste caso eles manteriam um depósito no local, gerando algumas vagas. Nada comparável ao que era, obviamente". A direção da Cosan foi procurada para confirmar a informação, mas não se manifestou. Atualmente restam na região de Ilhota e Luiz Alves cerca de 300 hectares de plantações de cana - uma fração perto do que já houve. Elas abastecem a produção de cachaça e uma pequena parte se transforma em produtos artesanais, como o melado. No total somente 12 produtores ainda investem no cultivo. "Neste momento não há nenhuma perspectiva de aumento da área plantada", avalia o presidente do sindicato dos produtores rurais de Luiz Alves, Ademir Francisco Rosa da Silva. A maioria das propriedade da região agora investe no plantio de arroz e na criação de gado. A Prefeitura de Ilhota também acusou o golpe. Afinal, de cada sete reais que entravam no caixa municipal todos os meses, um vinha da Usati. "A alternativa para repor a perda de arrecadação é investir e incrementar a industria de lingerie e linha praia, que agora é a maior fonte de arrecadação do município" avalia o prefeito Ademar Felisky.

Diversificação reduz impacto

Criciúma - O fim do ciclo da cana-de-açúcar em Santa Catarina só não provocou uma crise generalizada na região de Ilhota e Tijucas, devido diversificação das atividades econômicas a partir dos anos 80, quando os negócios da Usati entraram em declínio. A opinião é do professor de economia da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) Alcides Goularti Filho, doutor em economia pela Unicamp, de Campinas (SP) e autor do livro "Formação Econômica de Santa Catarina" (Editora Cidade Futura/2002). A obra de Goularti Filho mostra que em sua grande fase, o ciclo da cana-de-açúcar no Estado, nos anos 60, contava com mais de 35 mil hectares de áreas plantadas. O professor de economia da Unesc avalia que uma das principais causas do declínio da produção da cana-de-açúcar em Santa Catarina se deu em virtude da concorrência da indústria paulista e nordestina. "Com o Proálcool - programa do governo federal para incentivar a produção de álcool para consumo como combustível de automóveis - as usinas paulistas e nordestinas passaram por grandes processos de modernização e a concorrência ficou brutal", comenta. Segundo ele, a Portobello, no setor cerâmico, a indústria calçadista em São João Batista, e o turismo religioso em Nova Trento, impediram que a região vivenciasse uma crise econômica e social.

Atividade ainda é forte em Joinville - Produção vai para fábricas de cachaça e melado

Joinville - Com 2.800 hectares de área cultivada em dezenas de pequenas propriedades rurais, a cana-de-açúcar continua sendo uma das principais atividades do meio rural joinvilense. Cerca de 80% da lavoura canavieira é absorvida por 12 engenhos de cachaça e 40 unidades de melado, em sua maioria estão instaladas no distrito de Pirabeiraba - principal reduto agrícola do município. O restante da produção é destinada ao abastecimento de garapeiras e na alimentação de animais domésticos. No passado a cana-de-açúcar teve importância mais significativa, tendo se constituído no primeiro ciclo econômico do meio rural joinvilense. A atividade canavieira ganhou grande impulso através da Usina de Acúcar Pirabeiraba, que começou a ser implantada na fazenda Poço do Curtume, na região de Estrada da Ilha, nove anos após a chegada dos primeiros imigrantes europeus à então Colônia Dona Francisca. O empreendimento pertenceu do duque D'Aumale, parente do príncipe de Joinville, que iniciou a instalação da usina em 1860, tornando-se sete anos depois em ponto de referência do setor agroindustrial da colônia Dona Francisca. Segundo a historiadora Odete Schmalz, em 1867 a fábrica do duque ganhou equipamentos que permitiam a destilação da cana-de-açúcar através de processo a vapor. Na época, com 53 empregados, a fábrica que operava na produção de cachaça era considerada a maior empresa rural em toda a região do litoral Norte catarinense. Em 1876 João Paulo Schmalz foi nomeado administrador da empresa, função que exerceu durante 38 anos, durante os quais modernizou os equipamentos para produzir também açúcar branco refinado, que abastecia o mercado de Joinville e de outros centros urbanos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro. Ao escrever a monografia "Um Ducado Francês em Terras Principescas de Santa Catarina", Odete Schmalz deixou registrado que "o rigoroso controle em todas as fases de produção, avançada tecnologia, mão-de-obra pessoal altamente diversificada garantem à fábrica do duque D'aumale uma posição de destaque na indústria da colônia Dona Francisca. A usina pertenceu ao duque até seu falecimento em 1897. Os herdeiros mantiveram e empresa sob controle da família até 1921, ano em que se desativaram do negócio. Atualmente uma edificação que sobrou da usina está dentro de uma área de 270.200 m2 pertencente à empresa paulista Set Engenharia, que estruturou e transformou o local em condomínio de chácaras rurais. Pirabeiraba teve uma segunda fábrica de açúcar - a Usina Santa Catarina -, que foi instalada no começo da década de 1970 pelo empresário paulista Arnaldo Ribeiro Pinto. Em 1982 a Usina Santa Catarina, foi vendida ao grupo paranaense liderado por Serafin Meneghel, que transferiu os equipamentos para o Mato Grosso e na fazenda, de 2.800 hectares hoje são mantidos dois mil bovinos de corte. "A usina foi desativada porque o clima da região não é favorável à produção de açúcar em grande escala", assinala o agrônomo Marcus Justus Fontes.

Atividade artesanal

Joinville - Com uma produção anual de aproximadamente 15 mil toneladas de matéria prima, o setor canavieiro joinvilense gera trabalho e renda em dezenas de propriedades, que mantém a atividade sustentadas pela indústria artesanal da cachaça e do melado. Na visão de Nélson Holz, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Joinville, o que efetivamente acabou em Santa Catarina foi o ciclo de produção de açúcar refinado.  "Com o fechamento das grandes usinas, os canaviais diminuiram drasticamente, mas não vão acabar enquanto houver produção de cachaça e melado, duas atividades tradicionais em centenas de pequenas propriedades rurais de diversas regiões do Estado", diz o sindicalista joinvilense. Para produzir cachaça artesanal, a garapa é fermentada pelo período de 24 horas, passando em seguida pelo processo de destilação em alambique, de onde sai uma bebida de grande aceitação popular. Já o melado é feito de garapa fresca e fica pronto depois de sete horas de fervura em tacho de cobre. Cachaça e melado são os dois produtos artesanais mais famosos do interior de Joinville que ajudaram a consolidar o projeto de turismo rural implantado no município no começo dos anos 90.

FONTE: Jornal A Notícia – Joinville - 24/07/2005

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