sábado, 20 de novembro de 2010

Concepções do Conceito de Região

Região Natural
(Determinismo Ambiental)

Características da concepção do conceito de Região
A Região Natural é entendida como uma parte da superfície da Terra, dimensionada segundo escalas territoriais diversificadas e caracterizada pela uniformidade resultante da combinação dos elementos da natureza, como o clima, o relevo, a vegetação, a geologia e outros adicionais que diferenciariam ainda mais cada uma destas partes.

Uma Região Natural é um ecossistema onde seus elementos acham-se integrados e são interagentes.

Avaliação: uma análise sintética
Foi o determinismo ambiental o primeiro paradigma a caracterizar a geografia que emerge no final do século XIX, com a passagem do capitalismo concorrencial para uma fase monopolista e imperialista;
O determinismo ambiental justificava a expansão territorial através da criação de colônias de exploração no continente africano, e de povoamento em regiões temperadas, a serem ocupadas pelo excedente demográfico britânico e europeu.
As condições naturais, especialmente as climáticas, e dentro delas a variação de temperatura ao longo das estações do ano, determinam o comportamento do homem, interferindo na sua capacidade de progredir;
Estabeleceu-se uma relação causal entre o comportamento humano e a natureza, na qual esta aparece como elemento de determinação.
No projeto de expansão alemã, Ratzel desenvolveu o conceito de espaço vital, quer dizer, o território que representaria o equilíbrio entre a população ali residente e os recursos disponíveis para as suas necessidades, definindo e relacionando, deste modo as possibilidades de progresso e as demandas territoriais.
As regiões Naturais propostas constituem uma base para estudos sistemáticos para compreender as relações homem/natureza.
O clima aparece em Herbertson, Dryer e outros como o elemento fundamental da natureza.

No Brasil o conceito de região natural foi introduzido via influência francesa, por Delgado de Carvalho em 1913.


Região Geográfica
(Possibilismo)

Características da concepção do conceito de Região
A Região Geográfica abrange uma paisagem e sua extensão territorial, onde se entrelaçam de modo harmonioso componentes humanos e da natureza.

A Região Geográfica é considerada uma entidade concreta, palpável, um dado com vida, supondo, portanto uma evolução e um estágio de equilíbrio.
Neste raciocínio, chegar-se-ia a conclusão de que uma região poderia desaparecer. Sendo assim, o papel do geógrafo é o de reconhecê-la, descrevê-la e explicá-la, isto é, tornar claros seus limites.
O que importa é na região haja uma combinação específica da diversidade, uma paisagem que acabe conferindo singularidade aquela região, ou seja, onde o geógrafo evidenciava a individualidade da região, sua personalidade, aquela combinação de fenômenos naturais e humanos que não se repetiria.

Região e paisagem são conceitos equivalentes ou associados, podendo-se igualar, na geografia possibilista, geografia regional ao estudo da paisagem.

Avaliação: uma análise sintética
O Possibilismo francês na sua origem, opõe-se ao determinismo ambiental germânico. Neste contexto a geografia francesa teria que cumprir simultaneamente vários papéis:
a) Desmascarar o expansionismo germânico, criticando o conceito de espaço vital, sem, no entanto inviabilizar intelectualmente o colonialismo francês;
b) Abolir qualquer forma de determinação, da natureza ou não, adotando a idéia de que a ação humana é marcada pela contingência;
c) Enfatizar a fixidez das obras do homem, criadas através de um longo processo de transformação da natureza.
Vidal de la Blache redefine o conceito de gênero de vida sendo, pois um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis.

No Brasil a aplicabilidade do conceito de região geográfica se deu na medida em que formaram bases territoriais agregadas cujos resultados foram divulgados no recenseamento de 1950 e 1960.


Estudos de Área
(Método Regional)

Características da concepção do conceito de Região
A região para Hartshorne, não passa de uma área mostrando a sua unicidade, resultado de uma integração de natureza única de fenômenos heterogêneos.

No método regional a diferenciação de áreas não é vista a partir das relações entre o homem e a natureza, mas sim da integração de fenômenos heterogêneos em uma dada porção da superfície terrestre.

Foco no método, no estudo de áreas e por último a diferenciação de áreas passa a ser o objeto da geografia.

Avaliação: uma análise sintética
O método regional consiste no terceiro paradigma da geografia, opondo-se ao determinismo ambiental e ao possibilismo.
As contribuições do método regional para o conceito de região são muito limitadas.
No plano externo, o método regional evidencia a necessidade de produzir uma geografia regional, ou seja, um conhecimento sintético sobre diferentes áreas da superfície da Terra.
No plano interno registra a procura de uma identidade para a geografia, que se obteria não a partir de um objeto próprio, mas através de um método exclusivo, a diferenciação de áreas passa a se considerar o resultado do método geográfico e, simultaneamente, o objeto da geografia.


Classes de Área
(Nova Geografia)

Características da concepção do conceito de Região
Região definida como um conjunto de lugares onde as diferenças internas entre esses lugares são menores que as existentes entre eles e qualquer elemento de outro conjunto de lugares.

Geografia conhecida como teorética ou geografia quantitativa.

Fundamento no positivismo  lógico (analogia com as ciências naturais).

Utilização de técnicas estatísticas descritivas como o desvio padrão, o coeficiente de variação e a análise de agrupamento.

Divisão Regional concebida com objetividade máxima, implicando a ausência de subjetividade por parte do pesquisador.

A região não é considerada uma entidade concreta e sim uma criação intelectual balizada por propósitos especificados, tal como aponta Grigg.
Avaliação: uma análise sintética
Tem um papel ideológico a ser cumprido, é preciso justificar a expansão capitalista, escamotear as transformações que afetaram os gêneros de vida e paisagens solidamente estabelecidas, assim como dar esperanças aos “deserdados da terra”.
Calcada em uma abordagem locacional: o espaço alterado resulta de um agregado de decisões locacionais.
Na ampla possibilidade de aparecimento de divisão regional, existem dois enfoques que não se excluem mutuamente: O primeiro considera Região como simples ou complexa, onde simples é a divisão regional de acordo com um único critério ou variável, e a região complexa levam em conta muitos critérios ou variáveis (reduzida a umas poucas através da análise fatorial) como, por exemplo, a densidade demográfica, para definir uma dada região especificada. O segundo enfoque visa às regiões homogêneas ou funcionais, onde homogêneas referem-se à unidade agregada de áreas descritas pela análise de características sem movimento no tempo e espaço, e as funcionais definidas de acordo com o movimento de pessoas, mercadorias e decisões e idéias sobre a superfície da terra.
Calcada explicitamente nos princípios da classificação, várias classes de área organizam-se em um sistema classificatório, tal sistema pode ser concebido de dois modos:
- Divisão lógica (dedutiva): procedimento de trajetória descendente procura diferenciações;
- Agrupamento (indutiva): procedimento de trajetória ascendente procura regularidades.

No Brasil a Nova Geografia desenvolveu-se nos departamentos de Geografia de Rio Claro e de estudos Geográficos do IBGE.


Região ou áreas diferenciadas
(Geografia Crítica)

Características da concepção do conceito de Região
Considera-se o conceito de região e o tema regional sob uma articulação dos modos de produção.

Região é considerada uma entidade concreta, resultado de múltiplas determinações, ou seja, da efetivação dos mecanismos de regionalização sobre um quadro territorial já previamente ocupado, caracterizado por uma natureza já transformada, heranças culturais e materiais e determinada estrutura social e seus conflitos.  Ou em outras palavras, é a realização de um processo geral, universal, em um quadro territorial menor, onde se combinam o geral, o modo dominante de produção, o capitalismo, elemento uniformizador, e o particular, as determinações já efetivadas, elemento de diferenciação.

Para Duarte região é uma dimensão espacial das especificidades sociais em uma totalidade espaço-social, ainda afirma que regiões são espaços em que existe uma sociedade que realmente dirige e organiza aquele espaço.

Avaliação: uma análise sintética
A nova Geografia e os paradigmas tradicionais são submetidos a severa crítica por parte de uma geografia nascida de novas circunstâncias que passam a caracterizar o capitalismo.
O vetor mais significativo é aquele calcado no materialismo histórico e na dialética marxista;
Teve a função não só de contestar o pensamento dominante, mas também a intenção de participar de um processo de transformação da sociedade verificado nos países de capitalismo avançado o agravamento de tensões sociais;
O tema da região, questão clássica na história do pensamento geográfico, é retomado pela geografia crítica. Neste sentido, uma tentativa de conceituação de região será feita procurando entendê-la por uma visão dialética.
Foi aplicada a Lei do desenvolvimento desigual e combinado como forma de inserir o conceito de região dentro de um quadro teórico amplo, que permita dar conta da diversidade da superfície da Terra sob a ação humana ao longo do tempo.

No Brasil a geografia crítica nasce no final da década de 70, cujo marco foi o 3º Encontro Nacional de Geógrafos realizado em julho de 1978 em Fortaleza.


Região de planejamento
(território de ação e controle)

Características da concepção do conceito de Região
Ao defenir uma região para fins de ação e controle considera-se alternativamente: o conceito de região natural, o de região geográfica, e uma área vista por um aspecto ao qual se atribui relevância, como uma determinada produção. Pode ainda, na realidade, abranger uma combinação das alternativas mencionadas. Assim as diferentes conceituações de região estão presentes na prática territorial das classes dominantes.

Avaliação: uma análise sintética
A ação e controle sobre uma determinada área quer garantir, em última análise, a reprodução da sociedade de classes, com uma dominante, que se localiza fora ou no interior da área submetida a divisão regional, esta aceitação explícita ou  implícita da diferenciação de áreas ao longo da história. A sua ratificação ou retificação se dá a cada momento, conforme os interesses e os conflitos dominantes de cada época.
A região de planejamento, isto é, um território de ação e controle, tem seu apogeu nas décadas de 60 e 70. Este é o caso brasileiro: entre 1964 e 1977/78, sobretudo, numerosos estudos almejando a definição de regiões de planejamento foram realizados, seja a nível federal e macrorregional, seja a nível estadual.

Fonte Consultada:

CORRÊA, Roberto Lobato.  Região e Organização do Espaço. Editora Ática, São Paulo, 1987 – Série Princípio.

sábado, 30 de outubro de 2010

Floresta Amazônica

A Amazônia é a maior floresta tropical úmida do mundo com uma área aproximada de 4,5 milhões de km2 (Sioli, 1990), abrangendo no território brasileiro os estados do Amazonas, Pará, Acre, Roraima, Amapá, Rondônia, norte do Mato Grosso e oeste do Maranhão. Além do Brasil a Floresta Amazônica se estende pelos países vizinhos da Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Peru.
            A Amazônia está localizada no norte da América do Sul, sendo esta região cortada pelo rio Amazonas, que nasce no Peru, na Cordilheira dos Andes e deságua no oceano Atlântico, depois de cruzar todo o norte do país, tendo aproximadamente 6.570 km de comprimento(Ab’Saber, 2005). A região abriga o sistema fluvial mais extenso e de maior massa líquida da Terra, formando a Bacia Amazônica, que tem uma área calculada em mais de 7 milhões de km2  (Sioli, 1990).
            No domínio Amazônico predominam temperaturas médias anuais de 26 a 27 ºC, ocorrendo chuvas, em geral, superiores a 1700 mm, alcançando até 3500 mm, perfazendo uma precipitação média de 2500 mm ao ano. Ligado a tais condições climáticas, baseada na associação entre calor e umidade, foi possível gerar e preservar o grande contínuo de florestas e diversidade biológica, que se estende do nordeste do Pará aos sopés dos Andes, dos arredores da Serra dos Carajás às encostas do Pico da Neblina e serras ocidentais de Roraima (Sioli, 1990).
            O fator importante para a formação e manutenção da floresta amazônica é o regime pluvial, sendo a Amazônia uma região de chuvas abundantes e bem distribuídas o ano todo, devido a sua posição geográfica de clima equatorial, quente e úmido, além da densa rede de rios, propiciando o surgimento da floresta (Sioli, 1990).
            Segundo estudos, aproximadamente a metade da água da chuva caída na Amazônia retorna, por evaporação, diretamente a atmosfera, onde novamente se condensa e volta a cair (Sioli, 1990, Apud Salati et ali).
            Mas para se entender as condições atuais da Amazônia é preciso saber como elas se originaram, qual a história geológica que condicionou esta região. Um dos fatores responsáveis pela origem da Floresta Amazônica foi o soerguimento da Cordilheira dos Andes que bloqueou o escoamento do sistema fluvial amazônico, que naquela época, corria para o oceano Pacífico (Sioli, 1990).
            Na era Paleozóica a depressão amazônica estava coberta pelo mar formando um grande golfo aberto para o pacífico onde foram deixados sedimentos marinhos de vários períodos, chegando a 3.000 metros de espessura (Sioli, 1990).
            Após, houve uma regressão marinha e durante toda a Era Mezosóica a Baixada Amazônica era terra emersa, sendo que os rios que drenavam esta região corriam para o Pacífico, correndo, o canal fluvial principal em sentido contrário ao atual (Sioli, 1990).
            Foi então na Era Cenozóica que os Andes começaram a soerguer-se, passando a bloquear o escoamento do sistema fluvial amazônico para o oceano Pacífico represando as águas fazendo com que toda a depressão amazônica transformar-se em uma paisagem alagada formada por rios e lagos, ocorrendo a partir daí a formação de toda a Baixada Amazônica com sedimentos de água doce, que atingindo até 300 metros de espessura constituem as camadas da chamada formação Barreiras ou Alter do Chão (Sioli, 1990).
            Por fim, as massas de água acabaram fluindo para leste, formando-se o atual sistema fluvial do Amazonas, que a partir de então passou a desaguar no oceano Atlântico e o solo sedimentar da paisagem anterior, gerado na água, ficou a seco, cobrindo-se com a floresta (Sioli, 1990).
            A Floresta Amazônica é, portanto, resultante da história geológica e do clima, abrigando o sistema fluvial mais extenso e de maior massa líquida da terra, sendo coberta pela maior floresta pluvial tropical. A Floresta Amazônica se desenvolveu em uma planície, cuja rede hidrográfica drena esta região através dos vários rios, que se originam tanto no planalto Central como no planalto das Guianas e também nos Andes, tributários do Rio Amazonas que deságua todo este volume d’água no oceano Atlântico. É delimitada ao norte pelo maciço das Guianas e ao sul pelo maciço do Brasil Central, a oeste pela jovem Cordilheira dos Andes, ficando aberta a leste, permitindo aí a franca entrada dos ventos alísios (Sioli, 1990).
            O relevo Amazônico apresenta uma área de planície, com atitude de até 100 metros apenas ao longo do baixo Amazonas, constituída de sedimentos recentes resultantes da deposição de aluviões transportados pelos rios. A partir do distanciamento das margens do "grande rio" até cerca de 500 metros de altitude, ocorrem às depressões, com inclinações suaves, resultantes do trabalho de erosão sobre rochas de origem cristalinas ou sedimentares. Nos extremos Norte e Sul, encontramos os planaltos das Guianas e do Brasil Central, com altitudes variando entre 500 a 900 m, formados por terrenos cristalinos, constituindo áreas onduladas, (Sioli, 1990).
            A vegetação caracteriza-se de acordo com os três níveis topográficos da Amazônia, por três diferentes matas: de igapó, várzea e terra firme. A mata de igapó corresponde à parte da floresta em que o solo se encontra inundado, tendo como exemplo a vitória-régia. A mata de várzea é própria das regiões inundadas periodicamente, denominadas terraços fluviais ou planície aluvial de 20 a 100 km de largura. As matas de terra firme se localizam na parte mais elevada do relevo amazônico, livre de inundação (Sioli, 1990).
            Quanto à formação florestal, a Amazônia parece ser uma paisagem homogênea, mas não é, sendo que podemos distinguir dois tipos, a Floresta Ombrófila Densa, com vegetação fechada, úmida devido à luz solar não chegar ao solo, estando ligada a fatores climáticos tropicais de elevadas temperaturas (médias de 25ºC) e de alta precipitação, bem distribuída durante o ano com  0 a 60 dias secos. Esta floresta está presente por toda a planície amazônica (Veloso et ali, 1991).
            Já a Floresta Ombrófila Aberta circunda a parte sul da Bacia Amazônica e ocorre em inúmeros agrupamentos separados, situados nas partes norte e leste da Floresta Amazônica, apresentando quatro faciações florísticas que alteram a fisionomia ecológica da Floresta Ombrófila Densa, sendo a floresta de palmeiras, a floresta de bambu, a floresta de sororoca e a floresta de cipó, onde as copas das árvores geralmente não ficam tão próximas umas das outras, o que permite a passagem dos raios solares imprimindo-lhe claros, além de gradientes climáticos com mais de 60 dias secos por ano (Veloso et ali, 1991).
            Os terrenos areníticos do Período Terciário são em geral revestidos por comunidades florestais, com palmeiras por toda a Amazônia e com Bambu na parte ocidental, já as comunidades com sororocas e com cipó revestem preferencialmente as depressões do embasamento pré-cambriano e encostas do relevo dissecado dos planaltos que envolvem o grande vale amazônico (Veloso et ali, 1991).
            Nos Estados do Piauí e Maranhão a floresta de palmeiras pode ser considerada como uma floresta de babaçu revestindo terrenos areníticos do Cretáceo, na bacia do Maranhão-Piauí. A floresta aberta com bambu encontra-se distribuída principalmente nos Estados do Amazonas e do Acre, sendo que o gênero Guada invadiu recentemente sobre o dobramento pré-andino do Cretáceo. A floresta de cipó, que era mais expressiva no sul do estado do Pará, principalmente nas depressões circulares do Pré-Cambriano, encontra-se distribuída por toda a Amazônia. A floresta aberta com sororoca é quase exclusiva da bacia do rio Xingu, sendo a menos representativa (Veloso et ali, 1991).

Fontes Consultadas

AB’SABER, Aziz Nacib. Os Domínios de Natureza no Brasil – Potencialidades paisagísticas. Ed. Ateliê Editorial, São Paulo, 2005.

SIOLI, H. Amazônia – Fundamentos de Ecologia da maior região de florestas tropicais. 2ª edição, Ed. Vozes, Petrópolis, 1990.

VELOSO, H. P.; RANGEL FILHO, A. L. R.; LIMA, A. J. C. Classificação da Vegetação Brasileira Adaptada a um sistema Universal. IBGE/Dpto. de Recursos Naturais e Estudos Ambientais. Rio de janeiro, 1991.

domingo, 24 de outubro de 2010

Resenha Bibliográfica: O CONCEITO DE ESPAÇO RURAL EM QUESTÃO

IDENTIFICAÇÃO DA REFERÊNCIA

Título: O conceito de espaço rural em questão
Autora: Marta Inez Medeiros Marques


RESUMO

1. Apresentação

A diminuição das desigualdades sociais passa necessariamente pela valorização do campo, mas no Brasil o que se vê é um projeto de desenvolvimento rural voltado para expansão e consolidação do agronegócio, que embora gere divisas via exportação implica custos sociais e ambientais crescentes. A estratégia de desenvolvimento do campo deve priorizar o desenvolvimento social, mas que não se restrinja a uma perspectiva econômica, aumentando ainda mais as desigualdades, como pode ser evidenciado pelo avanço dos movimentos sociais no campo. É preciso uma política eficaz de fixação do homem no campo valorizando as atividades primárias tendo em vista que a pobreza atinge 39% da população rural e sendo identificado no meio rural os menores índices de escolaridade concentrando hoje os mais baixos níveis de renda média evidenciando o descaso do governo para com o homem do campo.

2. A nossa definição oficial de espaço urbano e rural

No Brasil adota-se o critério político-administrativo e considera-se urbano toda sede de município (cidade) e distrito (vila). O espaço urbano caracteriza-se por construções, arruamentos e intensa ocupação humana, além das áreas afetadas pelo desenvolvimento urbano bem como as reservadas a expansão urbana. Além disso, o urbano e o rural são definidos pelo arbítrio dos poderes municipais influenciado por seus interesses fiscais. Veiga (2002) discorda do critério de urbanização utilizado no Brasil e sugere o uso combinado de três critérios para se evitar uma ilusão imposta pela atual norma legal: o tamanho populacional do município, sua densidade demográfica e sua localização. Desta forma, 30% da população brasileira seriam essencialmente rurais. Pra esta análise é preciso considerar a relação entre espaços mais urbanizados e espaços onde os ecossistemas permanecem menos artificializados, ou seja, espaços rurais, para a definição de uma estratégia realista. Veiga procura defender a viabilidade econômica do espaço rural como trunfo econômico desses espaços o seu patrimônio cultural e natural, além das amenidades (ar puro, belas paisagens) enfatizando o dinamismo encontrado nos países desenvolvidos preocupando-se demasiadamente este autor em transformar o espaço rural em objeto do consumo não problematizando os aspectos sociais. Alentejano analisa a urbanização do campo com base na proliferação de atividades não agrícolas neste espaço como o turismo e prestação de serviços que não deixam de ser atividades rurais tendo em vista a dependência associada à terra.

3. Sobre critérios e definições, em questão a perspectiva dicotômica

O rural e o urbano são comumente definidos a partir de suas diferenças, ou seja, sob uma perspectiva dicotômica. Os principais critérios utilizados oficialmente são:
a) discriminação a partir de um patamar populacional;
b) a predominância da atividade agrícola;
c) delimitação político-administrativa.
De uma maneira geral, as definições elaboradas sobre o campo e a cidade podem ter duas abordagens:
A dicotômica: o campo pensado como meio social distinto da cidade se referindo as características de ordem econômica, espacial, social e cultural a partir de 8 traços principais:
- atividades desenvolvidas;
- dependência da natureza;
- tamanho das populações;
- densidade populacional;
- diferenças na homogeneidade e heterogeneidade das populações;
- complexidade social;
- diferenças na mobilidade social;
- direção da migração.
E a continuum: idéia de continuum rural-urbano, ou seja, maior integração entre cidade e campo, com a modernização desde e a destruição de formas arcaicas, admite-se, pois diferenças de intensidade e não de contraste entre estes dois espaços, em relação aos quais não haveria uma distinção nítida, mas uma diversidade de níveis que vão desde a metrópole até o campo no outro extremo, que analisado atentamente também se apóia numa concepção dual, pois consideram o rural e o urbano como pontos extremos numa escala de gradação.

4. A alienação do modo de vida urbano e a idealização da ruralidade

Para Willians a cidade se tornou o símbolo do capitalismo, embora o campo também tivesse sido influenciado e as relações entre cidade e campo tivessem se transformado. Só que no tocante ao campo o homem passou a valorizá-lo a partir de sua paisagem natural, objeto do consumo dessa nova sociedade capitalista. A divisão e oposição entre cidade e campo, indústria e agricultura, em suas formas modernas, correspondem à culminação do processo de divisão e especialização do trabalho que, com o capitalismo, foi desenvolvido a um grau extraordinário. O autor nos convida a superarmos tal divisão que estaria na base do processo de alienação e nos tornaria seres divididos. A imagem idealizada do campo corresponderia, assim, a uma reação crítica a forma alienada das relações sociais dominantes.
               
5. A relação cidade-campo

Para Marx, “A oposição entre a cidade e o campo começa com a transição da barbárie a civilização, da organização tribal ao estado, da localidade a nação e persiste através de toda história da civilização até nossos dias”. Já para Lefebvre a Razão teve na cidade seu lugar de nascimento contrapondo a cidade a ruralidade e a vida camponesa cheia de forças obscuras. Segundo Lefebvre são identificadas três eras:
Era agrária: nas sociedades agrárias as cidades arcaicas eram, sobretudo cidades políticas que organizavam o meio rural sendo dominada por este. O campo produzia e a cidade consumia.
Na Idade Média Européia, o surgimento das cidades relaciona-se com as seguintes funções: cidadela ou palácio, santuário e mercado. Neste período a separação entre cidade e campo pode ser entendida como separação entre capital e propriedade da terra, o passo seguinte foi a separação entre produção e comércio. A produção agrícola deixa de ser a principal atividade e a riqueza deixa de ser sobretudo imobiliária. A cidade passa a ser o lócus da produção e a controlar o sistema da produção no campo completando a vitória da cidade sobre o campo. Os fundamentos da riqueza não mais se reduzem a propriedade da terra, mas se estende ao trabalho e a troca.
A cidade industrial passa a gerar grande concentração urbana, apresentando extensos bairros proletários e abrigando população expulsas do campo. O movimento urbano associado ao processo de industrialização é responsável pelo surgimento de novas atividades econômicas para estruturar a circulação de mercadorias e para organizar e administrar todos os sistemas relacionados as atividades econômicas.
Por outro lado, a partir do final do século XX, com a saturação da cidade, a natureza transforma-se no “gueto dos lazeres”, o espaço do campo passa a ser colonizado pelos urbanos e a integrar o modo de vida deles. Nesta perspectiva, abre-se uma discussão sobre um novo rural para que se possa repensar o urbano e neste sentido não concebendo o campo apenas como complemento da cidade, tampouco paisagem a ser consumida, mas lugar de oportunidades para o momento em que estamos vivendo com  a superpopulação das cidades e a queda da qualidade de vida, a saturação do mercado de trabalho, sendo visível através dos movimentos sociais.

6. Considerações finais

Na França e Estados Unidos vêm ocorrendo um processo de revalorização do campo muito mais intenso que no Brasil, observado por uma nova divisão social do trabalho bem distantes da produção agrícola como o ecoturismo, o turismo de aventura, entre outras relacionadas a prestação de serviços dinamizando o campo e diversificando suas atividades.


COMENTÁRIO

O texto faz uma análise do espaço rural levando em conta o papel das cidades tendo em vista que os dois espaços, o rural e o urbano, só podem ser entendidos e analisados conjuntamente, pois fazem parte de uma totalidade indissociável onde a cidade é a paisagem construída pelo homem, que embora desenvolva atividades não relacionadas diretamente com a natureza necessita das matérias primas fornecidas por esta e não obstante fornece os insumos e equipamentos necessários para a realização das atividades agrícolas, sobretudo com a modernização da agricultura a partir da metade do século XX. O espaço rural foi tema de análise de diversos estudiosos que tinham como preocupação o estudo do fenômeno rural, sua definição, modernização sofrida nos últimos tempos com a absorção de tecnologias desenvolvidas pelas indústrias e até mesmo a tendência verificada com a valorização dos espaços rurais para o desenvolvimento de atividades diversas daquelas tradicionalmente desenvolvidas como, por exemplo, o turismo rural (de lazer e aventura) e outros serviços relacionados a este meio, enfim a satisfação das necessidades dos cidadãos urbanos que buscam pelas amenidades típicas das áreas rurais. Tal fenômeno é mais avançado nos países desenvolvidos como os estados Unidos e França onde existe inclusive um fluxo de pessoas das cidades para o campo em busca de novas oportunidades ou de uma melhor qualidade de vida. No tocante ao fenômeno rural não podemos esquecer dos movimentos sociais que vêm ocorrendo no campo, sobretudo por demonstrar os impactos sociais provocados pelo capitalismo que embora tenha a cidade como o maior reflexo, desenvolve-se no meio rural com a mudança nas relações de trabalho e na divisão social do trabalho. Nota-se, porém que a divisão social é mais evidente que a divisão social do trabalho entre campo e cidade. Neste movimento verifica-se tanto a recriação de práticas e tradições rurais em espaços liminares nas periferias das cidades, quanto a adoção de valores e padrões de consumo urbanos no campo. A sociedade tal como se estrutura atualmente coloca o campo como subordinado a cidade e as políticas governamentais sempre priorizaram um desenvolvimento setorial e não territorial que integrasse os dois espaços. Surge a necessidade da construção de um novo rural que passa pelo acesso à cidadania de toda a população rurais sendo pontos importantes para que isto ocorra, a emergência das classes subalternas no campo como sujeito políticos, reconhecimento da capacidade dos segmentos rurais de formular suas próprias alternativas de desenvolvimento e ampliação do acesso à informação pelas classes subalternas rurais para que estas possam se situar no mundo criticamente. Com base nisso, a sociedade têm gestado algumas alternativas surgindo novas experiências de luta no campo, nas quais os movimentos sociais têm buscado formas para permanecer na terra afirmando sua territorialidade. Esses novos movimentos sociais em geral propõem novas formas de organização social, ou seja, novas formas de produzir e existir coletiva e socialmente.



Lazer Virtual

     Com base no texto lido e apresentado em sala “Na Metrópole” onde é feita uma análise antropológica do papel do lazer na vida das pessoas como elemento de grande importância na construção da rede social foi desenvolvido este artigo referente ao lazer virtual muito difundido na sociedade contemporânea. Vale lembrar que o autor considera o lazer não como uma válvula de escape como o capital previa para o descanso do trabalhador, mas algo que socializa a massa e onde realmente são tecidas as relações sociais e onde o ser humano pode realmente falar sua língua, porém um imperativo moderno vem limitando esse tempo ao oferecer um novo tipo de lazer que conduz o homem a uma individualização.
     Atualmente o que se presencia no bojo da sociedade é um novo tipo de lazer ligado ao entretenimento virtual onde as pessoas passam horas plugadas/ligadas a procura de diversão e prazer demonstrando a individualização do ser humano e sua aversão ao mundo exterior. O avanço da tecnologia na área de informática permitiu ao homem uma gama de serviços e lazer on-line onde basta possuir um microcomputador com modem e uma linha telefônica para ter acesso aos mais diferentes tipos de serviços e opções de lazer ao alcance das mãos e no conforto de sua casa.
     Entre as opções de lazer virtual disponíveis está a Internet que permite ao usuário navegar pelos mais diferentes sites de entretenimento para assistir filmes, ouvir músicas, os canais de bate-papo, o Orkut, uma espécie de álbum digital onde o usuário pode colocar suas fotos preferidas e seus dados pessoais, além dos jogos on-line. O usuário ao desfrutar do lazer proporcionado pelo mundo digital não compartilha mais os equipamentos coletivos como uma praça onde as pessoas se reúnem para conversar, um café, deixando de realizar experiências significativas e que realmente valem a pena. Claro que não é pretensão dessa afirmativa dizer que o lazer virtual põe em risco o lazer tradicional, apenas conclui que as pessoas dedicam seu curto tempo de folga com este tipo de lazer talvez por comodidade, economia ou até mesmo por esse espaço ser mais receptivo e atraente, estando descansado para o dia seguinte de trabalho.
     Se voltarmos no tempo veremos que o rádio já ocupou seu lugar como lazer ao transmitir músicas, jogos de futebol, radionovelas e notícias, depois vindo a televisão colocando imagem e movimento nas velhas programações do rádio, atraindo ainda mais espectadores. Mais o computador conseguiu reunir tudo em único aparelho colocando inclusive trabalho e lazer no mesmo espaço bastando um clique na tela para a pessoa escolher entre trabalho e lazer.
     A tradicional dicotomia entre trabalho e lazer na era da informática parece não ocupar mais equipamentos diferentes como outrora, e se a função do lazer tradicional é unir a do virtual é individualizar e empobrecer culturalmente o ser humano visto que ele executa o mínimo de ícones possíveis e o programa já apresenta os resultados esperados, além do que ele não precisa nem pensar, nem ao menos refletir, pois cada idéia se encontra em um lugar sem haver choques entre elas, ao contrário de uma conversa que há opiniões divergentes e que a pessoa precisa exercitar sua argumentação e assim cumpre-se a função do capital que é a alienação do trabalhador.

Resenha sobre o filme: Cidade: da Aldeia a Megalópole

Pela primeira vez na história há mais pessoas vivendo nas cidades do que no campo. É com esta afirmativa que inicia o filme demonstrando o peso das cidades na atualidade e como as pessoas se tornam cada vez mais urbanas ou dependentes da sociedade urbano-industrial.
O filme traça a evolução das cidades desde a Antiguidade como é o caso da cidade localizada entre o Rio Tigre e Eufrates na Mesopotâmia formada há 5000 anos, da cidade de Roma ou a que se localizava na atual cidade do México até os dias atuais com o auge do desenvolvimento urbano, as Megalópoles.
As cidades antigamente surgiam por três razões: por confluência de rotas comerciais, por sediar um Reino ou pelo relevo propício.
Já se referindo as cidades contemporâneas à primeira perspectiva apontada em relação é sua identidade, algo particular que cada cidade carrega seja pela sua história, forma característica ou função desempenhada seja a nível local, regional, nacional ou mundial.
Outra perspectiva é a da cidade escondida e sua infra-estrutura subterrânea, onde é citado o exemplo da megalópole londrina onde sob as ruas de Londres passam inúmeros cabos de eletricidade, telefone, fibra ótica, canalização de água, gás, tubulação de esgoto, e por fim a linha de metrô.
É elucidado que quando um londrino abre a torneira não pensa na infra-estrutura necessária para levar água até a sua residência ou quando aciona o interruptor o fabuloso sistema elétrico operante, tampouco quando aciona a descarga aonde vai parar os dejetos eliminados.
                A este respeito o principal problema enfrentado pela cidade de Londres foi o destino de seus dejetos primeiramente sendo despejado em cursos de água como o Rio Tâmisa provocando uma epidemia de cólera. Para contornar o problema o esgoto passou a ser tratado com a utilização de produtos químicos diminuindo o efeito da cólera e tornando o rio um caldeirão tóxico. Por último criou-se a estação de tratamento totalmente orgânica revitalizando o Rio Tâmisa. Há pelo menos 50 anos não se vê esgoto no rio Tâmisa.
Em outro momento o filme revela que a superpopulação ou aglomerações urbanas sempre foi fator de geração de pestes no decorrer da história, com a Revolução Industrial as cidades passaram a crescer absurdamente atraindo grande contingente populacional. Não há dúvida que a Revolução Agrícola é que possibilitou o desligamento de parte da população para outras atividades tipicamente urbanas iniciando o crescimento das cidades com o desenvolvimento do artesanato, mas a política industrial de expulsão dos camponeses para formar o exército de operários necessário ao desenvolvimento da indústria alavancou o crescimento das cidades, com isso a cidade passou a ser mais do que nunca o centro da vida humana.

O caso de Portland

                Nos Estados Unidos com o crescimento das cidades houve grande investimento na rede de transportes com o incentivo ao uso do veículo particular por ser do interesse da indústria automobilística e de toda a rede de serviços vinculadas a este ramo. O trânsito se tornou um caos principalmente nos centros urbanos, foram criadas auto-estradas por todo o país para facilitar o deslocamento dos veículos. Portland seguiu um outro paradigma, o uso do transporte coletivo, o prefeito na época enfrentou várias resistências, mas por fim provou que esse era o caminho mais indicado.

O caso de Brasília

                Brasília foi uma cidade planejada com o propósito de mudar a capital para o centro do país e desenvolver desta forma o interior pouco habitado até então. Brasília foi o exemplo da forma que superou a função com sua infra-estrutura urbana altamente planejada não pensou no seu uso pelo homem. Ela foi construída no formato de um avião totalmente dividido por setores, o setor residencial para os burocratas, o de diversão, o bancário, o setor das tomadas de decisões e assim por diante. O plano piloto previa ainda as cidades satélites, mas aponta que embora sem infra-estrutura as favelas se tornaram mais humanas do ponto de vista da forma do que Brasília.